Quinto episódio de A Conta do Jogo discute os sinais de alerta, os recursos que mantêm os jogadores conectados e o papel da família no acompanhamento dos filhos.
Nem sempre o sinal de que uma criança está usando jogos online em excesso aparece no relógio. Ele pode estar nos estudos deixados de lado, na ausência nos momentos em família ou no afastamento dos amigos. O quinto episódio de A Conta do Jogo convida pais e responsáveis a observar essas mudanças e entender quando o hábito de jogar começa a prejudicar a rotina.
Conduzida pela jornalista Marcela Donini, a conversa reúne o psiquiatra da infância e adolescência Thiago Pianca e o especialista em jogos e professor da Unisinos, Maurício Gehling. Os convidados abordam o desenvolvimento de crianças e adolescentes, as estratégias dos jogos digitais para manter a atenção dos usuários e os cuidados que vão além de limitar o tempo de tela.
Quando jogar começa a prejudicar a rotina
Durante o episódio, Thiago Pianca explica que é importante distinguir uma situação pontual de um comportamento que se repete e provoca prejuízos. Passar mais tempo jogando em uma ocasião específica não é o mesmo que deixar, de maneira frequente, de estudar, participar de atividades de lazer ou conviver com outras pessoas para continuar conectado. É essa mudança persistente na rotina que merece atenção.
O psiquiatra também questiona a ideia de que estabelecer um número de horas, por si só, resolve o problema. "Um número de horas absoluto não é um indicativo de uso seguro por si só", afirma. Conhecer o conteúdo acessado e saber com quem a criança conversa são cuidados que precisam acompanhar os limites de tempo. O uso durante a madrugada e as noites sem dormir para jogar também entram na discussão.
O que faz o jogador querer continuar
Para explicar a vulnerabilidade nessa fase da vida, Pianca apresenta uma diferença no desenvolvimento cerebral: os mecanismos relacionados ao prazer e à recompensa amadurecem antes das áreas responsáveis pelo autocontrole. Na infância e na adolescência, isso pode tornar mais difícil interromper uma atividade que oferece estímulos constantes.
Maurício Gehling aproxima essa explicação do funcionamento dos jogos. Ao comentar experiências como Roblox e Fortnite, o professor descreve recursos que incentivam o retorno frequente: recompensas, temporadas, desafios e encontros com amigos dentro das plataformas. Em jogos desenvolvidos para receber atualizações contínuas, a experiência não termina necessariamente com uma última fase. Há novos motivos para voltar e continuar participando.
A conversa também aborda as caixas-surpresa e outras recompensas aleatórias presentes em alguns jogos. Pianca discute como esses recursos podem familiarizar crianças e adolescentes com mecanismos semelhantes aos das apostas, mesmo quando a experiência inicial não envolve dinheiro real.
Acompanhar é mais do que controlar o celular
Conhecer os jogos, perguntar sobre as partidas e se interessar pelo que acontece na tela são atitudes discutidas pelos convidados. Quando possível, assistir ou jogar junto ajuda os responsáveis a compreender esse universo. A atenção também deve incluir as interações: com quem a criança conversa, quem participa das partidas e quais conteúdos encontra nas plataformas.
O episódio não trata os jogos digitais como algo necessariamente prejudicial. Gehling apresenta possibilidades de aprendizado e cooperação, considerando a escolha de conteúdos adequados à idade e a participação da família. A proposta é olhar para a experiência oferecida pelo jogo, sem deixar que ela ocupe todo o tempo disponível.
Também há espaço para conversar sobre o tédio. Segundo Pianca, nem todo momento sem uma atividade precisa ser preenchido por uma tela. Aprender a lidar com esse sentimento pode levar a criança a imaginar, criar e encontrar outras formas de brincar. O excesso de tempo conectado, por outro lado, pode tirar da rotina oportunidades de movimento, convivência e desenvolvimento de novas habilidades.
Quando o comportamento passa a gerar prejuízos, o psiquiatra orienta buscar uma avaliação profissional para compreender o que está acontecendo. Esse cuidado permite identificar necessidades de acompanhamento e outras condições que possam estar associadas ao problema, em vez de tratar todas as situações da mesma maneira.
Além da conversa com os especialistas, o episódio reúne depoimentos de jogadores e familiares sobre os desafios do acompanhamento, do diálogo e da busca por ajuda.
Assista ao quinto episódio de A Conta do Jogo e acompanhe a série no YouTube e no Spotify.